O que não se disse do Rei

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O que não se disse do Rei

Mensagem por JornalExtra-Online em Ter 27 Maio 2008 - 13:59



Depois da Tragédia
comemorou-se este ano de 2008 o centenário do Regicídio
que haveria de acabar com a monarquia em Portugal.
Mas da história muito ficou por dizer sobre o descontentamento do povo,
dos “golpes palacianos”, que também os houve
bem como o revelar de episódios, embrião de conspirações
e a posição de alguns dos ministros do Rei D. Carlos I.

Aqui no site do EXTRA começamos hoje a publicar
grande parte dos quotidianos dessa época real.



O Conselho de Estado

Na grande sala de talha dourada, no palácio das Necessidades, em Lisboa, a 2 de Fevereiro de 1908, reunia o Conselho de Estado.

Dera-se na véspera, ao descer da tarde, a tragédia.

No quarto opulento do rei os cadáveres de D. Carlos I de Portugal e do príncipe herdeiro da coroa D. Luís Filipe, seu filho, iam sendo embalsamados. Eram como terríveis evocações, ali, a dois passos do lugar onde o Conselho deliberava.




Falava-se a meia voz, os sons abafavam-se sob os altos tectos, na meia luz do dia. Vinham de fora ruídos de passos de sentinelas e da vasta sala da Tocha tinidos d’armas , de hastes de lanças, descansando, rangidos de sapatos d’archeiros, até a curtos espaços de 15 minutos tudo era perturbado pelo tangido do sino na capela, pelo ribombo das salvas fúnebres.

Pontas d’árvores reverdeciam no pateo agora tristonho transformado em acampamento com os seus sarilhos d’espingardas, com os tropéis de rondas e ordenanças; carruagens paravam. Cenário dantesco nos estalos vibrantes de portinholas para a seguir cair tudo no silencio vago diante da fachada onde o pavilhão vermelho. Bandeiras a meio do pau, dizia que mais uma vez a morte visitara aquele velho casarão evocador dos dramas da realeza, o palácio fatídico dos Bragança.

À cabeceira da grande mesa dourada D. Manuel II, o filho mais novo do Rei assassinado, falava comovido, pálido de cera, braço esquerdo ao peito, pelo ferimento durante o Regicídio, olhando vagamente, como saído dum pesadelo, aqueles conselheiros que ali estavam após a tragédia e a tomar posição para um reinado afinal tão efémero prestes a iniciar-se.

As palavras de D. Manuel II soavam como quem pedia amparo e entre as duas Rainhas de luto. O jovem princípe forcejava por segurar a voz ao dizer que esperava de todos ajuda e bom conselho, no meio da mais temerosa crise da dinastia.




Num ângulo da mesa a avó, a Rainha D. Maria Pia, era uma estranha ruína da sua tão notada e falada beleza, que tão soberana outrora se mostrara com o manto real pendente dos seus ombros marmóreos. Agora sofredora, dolorosa expressão, grande prega nos lábios esmaecidos, olhos no chão fixando um ponto do tapete, a razão perdida por longe, por outros mundos.

No outro canto a Rainha D. Amélia, (a gentil e altiva princesa de Orleans que da corte francesa veio para desposar o rei de Portugal era agora viúva), olhos magoados, a procurar por vezes conter os soluços, evocava talvez, na sala do lado o seu grande retrato dos dias felizes, ela e o rei sobre dois trenós cintilantes.

No meio dos Conselheiros de Estado, a cabeça curvada, o Príncipe Real D. Afonso, calvo, avelhentado, o grande bigode louro a alvecer, ia escutando também a voz do sobrinho mais novo que pela grande tragédia viria a ser Rei.

Vestido na farda bordada, macilento, os olhos negros brilhantes de febre, o conselheiro João Franco, o ministro do rei morto a embalsamar na sala ao lado junto com o filho, parecia guardar uma esperança naquele Conselho de políticos.

Dois dias antes era ainda o triunfador. A sua voz nervosa, sacudida, vibrante, a miúdo irritada, ordenava e era obedecida, apesar da revolta latente que os bandos desencadeavam nas ruas e os partidos auxiliavam na sombra.

Agora era um vencido vivo, que ninguém desculpava, como nem ao Rei, ao vencido morto.

Aquela reunião de conselheiros lembrava bem um conselho de guerra para o julgar. Ali, entre os adversários, mal sentia o suplício e isso via-se ainda ao esperar que o deixassem no poder.

Com o critério transtornado da Nação ele era o culpado de tudo: daqueles cadáveres enregelando na sala vizinha, da viuvez da Rainha Amélia, do maior tormento da vida da Rainha Maria e da orfandade do Manuel I a ascender a Rei, da atmosfera trágica que enchia o país de lado a lado, do levante de triunfos no campo revolucionário.



Morte ao Rei dizia o povo e assim foi

Estava porém, ali quem soubesse como tudo se passara e porque no fundo dos aposentos régios o soberano Carlos que se apoiara na sua energia, jazia no seu leito, sob a bandeira de Portugal feita mortalha, enquanto de todos os lados os adversários já vinham acorrendo a beijar a mão do filho mais novo que ia reinar.

Continuavam as salvas e dobravam os sinos de longe. Com o tropel das rondas, chegavam pregões cantantes sob o céu baixo, dizendo da vida, sem perturbação, da capital.

Ainda no Conselho calara-se a voz do novo Rei e levantara-se a do conselheiro José Luciano de Castro.

Era o mais antigo membro do Conselho; fora ministro de dois reis, representava o mais unido e sólido partido da Monarquia e com a sua velhice, a sua invalidez para as lutas pessoais nas Câmaras e no Governo não deixava de ser o mais avisado, o mais hábil, o mais arteiro dos políticos.

Evocava com horror a tragedia, tocava livremente no que dizia as suas causas e afirmava que todos os partidos deviam sacrificar-se naquela hora.

Votava por um governo de concentração monárquica, no qual entrariam experimentados políticos, mas não os chefes desses partidários. Excluía-se do poder para servir o Rei. Desistia em primeiro lugar.

Deste modo se alijava João Franco, se afastava Júlio de Vilhena. O chefe progressista, pela sua doença incapaz de entrar no ministério criava assim um outro no qual interferiria.

Se todos os chefes tivessem juntado os seus esforços e entrassem de acordo no governo, diante da tremenda crise, muito se teria modificado a situação politica.

Ele que ao começo auxiliara o vencido de hoje, fora também seu adversário quando vira os “princípios”, como então dizia, a transmudarem-se.

Fora rija a batalha e de todo esse tumultuar de cóleras, de tropos, de condenações, de todo esse mistério das conjuras já nada restava senão aquele luto.

O chefe progressista era, pois, o primeiro a excluir-se do governo para servir o seu Rei.

Os outros ouviam-no, uns sonhando com uma vida nova, alguns cépticos, descrentes, deixando proceder o acaso, entregues à fatalidade.

Mal representavam uma força real. Dois eram devotados progressistas, seguindo o chefe ; três regeneradores; dois franquistas, que estavam embaraçados ante a tragédia demolidora dos Reis e do partido; Mas ia pronunciar-se Júlio de Vilhena. Com a sua frase académica, grave, naquela assembleia de dores, ele declarava os regeneradores aptos para governar.

Tinha um singular sabor aquela oferta vinda do homem que sentia ainda maus dias para a Monarquia e fôra profeta dos males que a perseguiam, ao dizer como o reinado de D. Carlos acabaria por um crime ou por uma revolução.

Soara rijamente o riso ante aqueles dizeres do velho político; alcunharam-no de poeta ao ouvirem a sua linguagem que lhes parecia uma singular perlenga arcaica.





Um crime, dissera ele

E na boa terra portuguesa ninguém acreditava que, na sombra, ele já andasse a medrar. Uma revolução?! E todos tinham encolhido os ombros, rindo dos revolucionários, pensando na dedicação do exercito, na garantia de tantas espadas que se viam fulgurantes nas paradas e tilintantes nos passeios.

- Um crime!
- Uma revolução!


Qual seria nesta cidade burguesa a mão que o cometeria?!

Quem atearia a guerra entre uma tropa cheia de rancores contra os inimigos do Rei?!

Pensara-se assim. E a profecia cumprira-se.

Os chefes republicanos, após uma ridícula conjura fracassada, estavam presos, mas o mar de sangue real coalhara-se no Terreiro do Paço; alguns dissidentes, seus companheiros também, estavam nos quartéis; o seu chefe, depois dumas horas de recolhimento em casa de Teixeira de Souza, ali a S. Sebastião da Pedreira, 51, 1º., conseguira passar a fronteira, mas dois cadáveres se estendiam na sala vizinha àquela onde Júlio de Vilhena acabara o seu discurso.

A ideia do chefe progressista ganhava terreno; a concentração monárquica mais convinha que a responsabilidade dum partido naquela hora e os votos iam-se acumulando enquanto João Franco, decerto, pensava que alguém do seu núcleo com esse governo ficaria.

Ambiente pesado, sentia-se um gélido terror naquela reunião.

Parecia que de todos os lados iam sair novamente homens armados de carabinas a fazerem a chacina no Paço rodeado de tropas; tinha-se a impressão que os chefes republicanos iam abrir as portas dos seus cárceres e, surgindo nas ruas, levarem o País à guerra e a turba para as barricadas.

No fundo Havia uma certa razão quanto à defesa; uma completa ignorância em relação ao ataque, como se verá ao lançar-se a luz crua sobre os bastidores desses partidos aterrorizados de lado a lado.

No quarto real iam enregelando os cadáveres dos vencidos; à mesa do Conselho arrefecendo mais a atmosfera em volta do ditador.
Ninguém votara pela continuação do ministério.


Os homens no Conselho

Veiga Beirão e António Cândido.
António d’Azevedo, Moraes de Carvalho e Pimentel Pinto.
Mello e Souza e José de Novaes.
José Luciano, Júlio de Vilhena e João Franco
António Emílio de Sá Brandão ( que faltou por doença).

Soavam sempre as salvas; batiam as badaladas lúgubres nos campanários. Arrastavam-se cadeiras na grande sala de talha dourada.

Terminara o Conselho e já os seus membros se dobravam beijando as mãos reais; saíam lentos e graves, como se acabassem de gerar felicidades, passando ante os archeiros, os soldados, os moços de câmara, nos dourados fulgurantes das suas fardas.

Depois eram vozes cochichadas nas ante-camaras, damas de luto e fidalgos procurando saber o que se passara; no fim portinholas de carros batendo, estrepitando no largo numa abalada.

João Franco ficara ainda, isolado, de pé, junto à mesa. José Luciano, encostado à bengala, esperava. Discutia-se agora a quem devia ser dado o poder. José Luciano lançava o nome de Ferreira do Amaral. E a voz da Rainha Mãe ergueu-se como agarrada àquela esperança, àquele auxilio para o filho:

- Sim … O Ferreira do Amaral… É muito meu amigo… Sempre o demonstrou, sempre me falou dedicadamente no Instituto Ultramarino… “Que sim… O Amaral!...”



Adaptado por MLQ

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