[Opinião] Flash de Portugal na óptica de Baptista Bastos

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[Opinião] Flash de Portugal na óptica de Baptista Bastos

Mensagem por JornalExtra-Online em Seg 9 Jun 2008 - 14:46



Mas este "GRITO DE REVOLTA", esta "OPINIÃO LÚCIDA" é o que todos nós sentimos; daí, cá vai...

TEXTO de leitura OBRIGATÓRIA

E para ele exige-se reflexão urgente...


Baptista Bastos escreveu:Cada vez mais nos afastamos uns dos outros.

Trespassamo-nos sem nos ver.

Caminhamos nas ruas com a apática indiferença de sequer sabermos quem somos.

Nem interessados estamos em o saber.

Os dias deixaram de ser a aventura do imprevisto e a magia do improviso para se transformarem na amarga rotina do viver português e do existir em Portugal.

Deixámos cair a cultura da revolta.

Não falamos de nós.

Enredamo-nos na futilidade das coisas inúteis, como se fossem o atordoamento ou o sedativo das nossas dores.

E as nossas dores não são, apenas, d'alma: são, também, dores físicas.

Lemos os jornais e não acreditamos.

Lemos, é como quem diz - os que lêem.

As televisões são a vergonha do pensamento.

Os comentadores tocam pela mesma pauta e sopram a mesma música.

Há longos anos que a análise dos nossos problemas está entregue a pessoas que não suscitam inquietação em quem os ouve.

Uma anestesia geral parece ter sido adicionada ao corpo da nação.

Um amigo meu, professor em Lille, envia-me um email.

Há muitos anos, deixou Portugal.

Esteve, agora, por aqui.

Lança-me um apelo veemente e dorido:

'Que se passa com a nossa terra?
Parece um país morto.
A garra portuguesa foi aparada
ou cortada por uma clique,
espalhada por todos os sectores
da vida nacional e
que de tudo tomou conta.
Indignem-se em massa,
como dizia o Soares.'

Nunca é de mais repetir o drama que se abateu sobre a maioria.

Enquanto dois milhões de miúdos vivem na miséria, os bancos obtiveram lucros de 7,9 milhões por dia.

Há qualquer coisa de podre e de inquietantemente injusto nestes números.

Dir-se-á que não há relação de causa e efeito.

Há, claro que há. Qualquer economista sério encontrará associações entre os abismos da pobreza e da fome e os cumes ostensivos das riquezas adquiridas muitas vezes não se sabe como.

Prepara-se
(preparam os 'socialistas modernos'
de Sócrates)

a privatização de quase tudo, especialmente da saúde, o mais rendível.

E o primeiro-ministro, naquela despudorada 'entrevista' à SIC, declama que está a defender o SNS!

O desemprego atinge picos elevadíssimos.

Sócrates diz exactamente o contrário.

A mentira constitui, hoje, um desporto particularmente requintado.

É impossível ver qualquer membro deste Governo sem ser assaltado por uma repugnância visceral.

O carácter desta gente é inexistente.

Nenhum deles vai aos jornais, às Televisões e às Rádios falar verdade, contar a evidência.

E a evidência é a fome, a miséria, a tristeza do nosso amargo viver; os nossos velhos a morrer nos jardins, com reformas que não chegam para comer quanto mais para adquirir remédios; os nossos jovens a tentar a sorte no estrangeiro, ou a desafiar a morte nas drogas; a iliteracia, a ignorância, o túnel negro sem fim.

Diz-se que, nas próximas eleições, este agrupamento voltará a ganhar.

Diz-se que a alternativa é pior.

Diz-se que estamos desgraçados.

Diz um general que recebe pressões constantes para encabeçar um movimento de indignação.

Diz-se que, um dia destes, rebenta uma explosão social com imprevisíveis consequências.

Diz a SEDES, com alguns anos de atraso, como, aliás, é seu timbre, que a crise é muito má.
Diz-se, diz-se.

Bem gostaríamos de saber o que dizem Mário Soares, António Arnaut, Manuel Alegre, Ana Gomes, Ferro Rodrigues (não sei quem mais, porque socialistas, socialistas, poucos há) acerca deste descalabro.
Não é só dizer: é fazer, é agir.

O facto, meramente circunstancial, de este PS ter conquistado a maioria absoluta não legitima as atrocidades governamentais, que sobem em escalada.

O paliativo da substituição do sinistro Correia de Campos pela dr.ª Ana Jorge não passa de isso mesmo: paliativo.

Apenas para toldar os olhos de quem ainda deseja ver, porque há outros que não vêem porque não querem.

A aceitação acrítica das decisões governamentais está coligada com a cumplicidade.

Quando Vieira da Silva expõe um ar compungido, perante os relatórios internacionais sobre a miséria portuguesa, alguém lhe devia dizer para ter vergonha.

Não se resolve este magno problema com a distribuição de umas migalhas, que possuem sempre o aspecto da caridadezinha fascista.

Um socialista a sério jamais procedia daquele modo.

E há soluções adequadas.

O acréscimo do desemprego está na base deste atroz retrocesso.

Vivemos num país que já nada tem a ver com o País de Abril.

Aliás, penso, seriamente, que pouco tem a ver com a democracia.

O quero, posso e mando de José Sócrates, o estilo hirto e autoritário, moldado em Cavaco, significa que nem tudo foi extirpado do que de pior existe nos políticos portugueses.

Há um ranço salazarista nesta gente.

E, com a passagem dos dias, cada vez mais se me acentua a ideia de que a saída só reside na cultura da revolta.


Cardeal Vermelho

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