Romeu Correia foi padrinho… Fadistas e Fado em 1998

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Romeu Correia foi padrinho… Fadistas e Fado em 1998

Mensagem por JornalExtra-Online em Seg 16 Jun 2008 - 14:52



Estávamos em Junho e o Restaurante “Trapo Azul”
havia sido inaugurado fazia pouco tempo.
Responsáveis pelo projecto foram dois,
embora um mais do que o outro o qual, pela honestidade
- conta o primeiro, fazia “muito pouco”…



E terá sido mesmo por isso que a sociedade se desmanchou depois dos “bate-boca” que ninguém ouviu mas que se dá por certo pois o tal sócio desapareceu da circulação e o Raposo, criador do projecto, ficou sozinho no governo da “nave” sem se queixar e com ventos a correr-lhe de feição à “navegação".

Iniciava-se nas lides da restauração, um tanto à aventura, ele que agora deixara os hangar e os aviões,“poiso” certo de longos anos e onde deixou bom testemunho de perícia na arte da mecânica aplicada às naves.



Uma vida nova à R. Capitão Leitão

E o Raposo inaugurou o restaurante “Trapo Azul” na rua Capitão Leitão em Almada, ali junto ao páteo onde antigamente fora a Taberna do Paulo. E a sede do Almada Atlético Clube, anos 60, depois do incêndio. A seguir foi armazém dos Móveis Coelho que alugou o espaço para o Trapo Azul.






Homenagem às Costureiras

O nome tem poesia. Inspira-se no livro do escritor Romeu Correia , com o mesmo nome dedicado às costureiras de Almada, operárias da ganga, o tal trapo azul que transformavam em fardas, nos intervalos dos filhos a dormir, do maridos a cuidar, da casa para arrumar. E o trabalho era levado a Lisboa, para comercializar pelos grandes armazéns. Em grandes volumes, tanta vez à cabeça lá iam elas ladeira abaixo, pela Pedreira rumo a Cacilhas, que a camioneta da carreira rareava e era um luxo ao qual as costureiras não se podiam dar.

Eram mulheres sofridas, magoadas pela vida que ao tempo (anos 40/50) não lhe era fácil.

E em memória delas o restaurante ficou a chamar-se “Trapo Azul” .

Romeu Correia, o escritor foi o padrinho e assistiu ao “baptismo” em companhia dos donos da casa e de Almerinda a primeira mulher atleta e a vestir calções, na então vila de Almada.

Assim típico no “Trapo Azul” ficou a faltar o FADO, considerado como expressão nostálgica de um povo e desde remotas datas se canta entre portugueses.

E foi em ambiente castiço, velas acesas, carrascão em jarros de barro, que trinaram guitarras. Acontecia ali Fado pela primeira vez.



AFAMA era a associação

Da Rua Capitão Leitão o Fado estava arredio desde que “O Pancão” encerrara as suas portas. Agora no “Trapo Azul” seis fadistas de nomeada reabriam. Ali mesmo se formou, naquela noite, Associação de Fadistas Amadores da Margemsul e Almada – AFAMA .

– Fundada pela jornalista Maria Leonor Quaresma, directora do jornal Almada Press teve como co-fundadores Santana Ribeiro, Fernanda Ferreira, Marino João, António Ribeiro, João Costa, António Xabregas, Carlos Fernandes, Isabel Moleiro, Cecília Abreu, Jorge Silva, o advogado Luís Gonçalves, guitarrista e António Gonçalves viola.

O jornal Almada Press disponibilizou instalações e apoiou a Associação , em Almada velha, num prédio alugado ao jornal desde 1989, No número 52 da Rua Manuel de Sousa Coutinho. E durante alguns anos apoiou e promoveu jovens fadistas. Realizou as três primeiras “Grandes Noites de Fado em Almada” que decorreram na Sociedade Filarmónica Incrível Almadense. Em cada ano se homenageou primeiro Carlos Paredes; Amália Rodrigues; e no terceiro ano Luísa Basto.






Amália Rodrigues após 45 anos
voltou a Almada


Em 1998 a II Grande Noite homenageou Amália Rodrigues que esteve presente no espectáculo e descerrou uma lápide numa cerimónia breve na sala de honra da Incrível.

Amália Rodrigues voltou a Almada, para participar nesta iniciativa do jornal Almada Press, a pedido da directora e 45 anos depois de ter cantado num colectividade local.

Nas instalações do jornal, sede provisória da AFAMA, aconteciam semana a semana aulas gratuitas de guitarra e viola, para os associados interessados em iniciar –se naqueles instrumentos.

As aulas de guitarra portuguesa foram ministradas por Luís Gonçalves e Jorge Silva.

Nessa semana, na edição do Almada press (1998) lia-se assim:

“Na noite de 6 de Julho, depois do êxito da semana anterior, em ambiente castiço a guitarra trinou às mãos de Luís Gonçalves e a noite começou com fados de Coimbra por António Gonçalves. Luís Gonçalves, advogado, radicado em Almada, é o criador de uma escola de música na Cova da Piedade, de onde já saíram alunos com fortes possibilidades de vingar nesta arte marialva. Foi referido o caso dos irmãos Henrique e Carlos Leitão, empresários de hotelaria, estabelecidos no concelho, já a participarem em sessões de fados.

Luís Gonçalves assumiu ser desde há muito um apaixonado da guitarra portuguesa que toca desde os 14 anos. Toca outros instrumentos, e clarinete, este nas suas passagens pelas filarmónicas da sua terra, a Moita.

Confessa que “guitarras e violas são a sua verdadeira paixão”.

Considera que “têm surgido, ultimamente, vozes de grande valor e nota-se uma maior aderência por parte dos jovens, o que não acontecia há dez anos atrás”. Acredita que se deva talvez ao conceito, errado, de que os fadistas se associavam à “vagabundagem” e a uma vida “obscura” e de baixo nível social.

Hoje “as gentes do fado” já são bem aceites pela sociedade e isso dá motivação para quem agora inicia”.

A propósito desta iniciativa do Almada Press e da Associação agora criada considerou que “encontros deste tipo são sempre bem vindos e é importante que nunca desapareçam, pois são eles que ajudam a manter viva esta tradição portuguesa”.






Soltar asas e voar …

A fadista Cecília Abreu cantou num trinado marcado, melodioso, comparado ao estilo de Maria Teresa de Noronha. Começou a cantar logo em pequena embora nunca tenha feito do fado o seu modo de vida. “A minha família não achava graça nenhuma à minha vocação”.

Cecília seguiu na arte dos penteados e profissionalizou-se cabeleireira para fazer a vontade à mãe. Mas…

“Nunca larguei o fado por completo. Se calhar não tomei o caminho certo. Os sonhos amordaçados dentro de nós criam-nos traumas e foi isso que me fez tomar a iniciativa de me inscrever na escola de Luís Gonçalves. E vou continuar. O fado faz parte da minha vida, cantar é como soltar asas e voar”.

Para Cecília Abreu o fado não está em decadência, bem antes pelo contrário e nunca há-de ser esquecido. Os jovens parecem agora dar-lhe uma outra dimensão, mantendo forte esta velha tradição.

Mas Cecília Abreu não se contenta com aulas de canto. Está a aprender guitarra desafiando a memória de Cesária e Maria Severa das poucas mulheres que se conhece a dedilhar guitarra portuguesa. Para uma mulher aprender guitarra não é nada vulgar, mas Cecília enfrenta o desafio.

Nesta noite de Julho Cecília deixou brilhou o fulgor de uma voz inconfundível, em tom de fado nobre, trazido, também, pela voz de Isabel Moleiro.

Poucas vezes nos é dado ouvir o fado naquela dimensão. Ela de estatura pequena, num sentimento agigantado na voz e uma firmeza na suavidade dos trinados Isabel Moleiro recebeu os calorosos aplausos dos presentes depois de contar cantando uma faena recordada numa adega típica em recuados tempos.

Um solo de guitarra e viola encerrou com chave de ouro a sessão de fados no Trapo Azul agora o novo espaço que Almada ganhou para ouvir o fado.



O fadista marialva…

Marino João, o fadista marialva, como se apresenta, foi pegador de touros e tem na voz castiça a garra e a força dos homens do Ribatejo. Foi ele quem encerrou esta noite que tão cedo não se esquecerá, vivida em animado convívio e muito Fado no restaurante “Trapo Azul” em Almada.



(Julho de 1998)

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Trapo azul

Mensagem por José ric em Seg 16 Jun 2008 - 15:17

Realmente as historias da nossa Amada emocionam. Esta das costureiras e do Trapo Azul do Romeu Correia eu não me lembrava.
Aquela do fogo no Almada Atlético Clube é que não sei como foi. Já agora escrevam um dia destes qualquer coisa sobre isso.
j.r.

José ric
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