"O Carro Eléctrico", um poema livre de Rogério do Carmo editado na obra "Vagas"

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"O Carro Eléctrico", um poema livre de Rogério do Carmo editado na obra "Vagas"

Mensagem por JornalExtra-Online em Ter 9 Set 2008 - 21:58

" Arrebate de desespero e raiva"

Os poetas são libertinos. Ousados. Tem a coragem de referir os estados d'alma. O grande poeta José Carlos Ary dos Santos
"cantou" um dia: "serei tudo o que disserem (...) poeta castrado, não!
- Hoje divulgo a este espaço um poema livre de Rogério do Carmo, editado na obra "Vagas", recentemente editado, em português, em Paris, é, reconhecemos, um "acto" de coragem.







"Escrevo porque o papel é indefeso e a caneta obediente..."



O CARRO ELÉCTRICO



Da Graça ao Martim Moniz

Do Martim Moniz à desgraça

Secou a água no chafariz

Gaguejou o velho carcaça

Desmaiou o amerelo da Carris

É assim mesmo tudo passa!



Passa a poesia no ar

No ar passa a poesia!

Passou o Fernando Pessoa

O Álvaro de Campos o Alberto Caeiro

Que agora bem alto se apregoa

Passou o Mário de Sá Caneiro

Passaram todos por Lisboa

E ficaram amigos como dantes

Deles se fala no mundo inteiro!

Até dizem que foram amantes!

Um deles mesmo paneleiro!

Vivos só lhes apontaram facas

Mortos são poetas malditos

Vivos foram malditos poetas!

Destinos confusos proscritos

Na terra fria são profetas!



Passou a poesia no ar

No ar passou a minha poesia!

Passei sòzinho a cismar

Contra o mundo inteiro a lutar

Passou a minha euforia!

Assim são os meus versos

Nem medidos nem pesados controversos

Incontidos repudiados dispersos

À espera de verem o dia!

Mas como o dia depressa se faz noite

E na audácia ninguém que se afoite

Na minha campa um dia virão pôr

Os versos que fiz com tanto amor

Na indiferença de uma sociedade que me injuria!

Se de mim nunca quiseram saber

Não me venham depois o cú lamber

Já não preciso da vossa simpatia!



Farto das vossas precauções

Dos velhos poemas de Camões

Que hoje é Portugal e até tem o seu dia!

Se meus versos não são acatados

E meus poemas publicados

É porque vos falta o que a mim me sobra:

A ousadia!



É assim mesmo tudo passa

No vosso mudo almofariz

Nunca dizendo o que se faça

Nunca fazendo o que se diz!



Não estou velho nem acabado

Nem senil nem débil nem aultrapassado

Ainda tenho muito que parir!

E neste grito desgarrado

Deixo bem clarificado:

O melhor ainda está por vir!



Não me impeçam de falar

Não me impeçam de me exprimir

Correm o risco de derrubar

O que vocês mais proclamam:

A vossa democracia!

Há ano e meio que não trabalho

E quando emprego procuro

Mandam-me sempre p'ò caralho

Ou p'à cona da minha tia!

E lá fico contra o muro!



Se depois de morto eu for vendido

Como o Pessoa o Sá Carneiro

Serei eu sempre o mais fodido

Pois morri sem ter vivido!

Deixem-me viver a vida primeiro

Mesmo que nunca seja lido!



Não me falem de Salazar

Nem Caetanos nem Delgados!

Os bifes que sempre me foram recusados

Continuam cada vez mais congelados

Nas vacas que aos outros de mamar!

Não me falem de Fevereiro

Nem de Março nem de Abril!

Nas vossas promessas de cabrões

Não há nem Primaveras nem Verões

Nem Natal nem Páscoa nem Entrudo!

Só utopias quimeras ilusões!

Tudo mostrado por um funil

Tudo visto por um canudo!



Criaram tantos Sindicatos

Para defender os trabalhadores

-E nisso tanta vaidade!-

Para os brancos os pretos os mulatos!

São realmente uns amores!

Até inventaram o limite de idade!

Tens a reforma aos sessenta e cinco!

Tenho cinquenta e emprego não consigo!

Passaste o limite de entrada!

E mandam-me para uma coisa que não digo

Uma palavra muito malcriada

Uma palavra não autorizada

Mas com a fome é que não brinco!

As palavras são todas um meio de expressão

Nem boas nem más apenas a transmissão

Daquilo que penso daquilo que sinto!

E nesta vida de desenganos

Nesta agonia neste desalento

Como sobreviver ainda quinze anos

Como pôr ainda tudo em movimento?



Mais p'à esquerda p'à direita volver

Ou no centro me quedar?

Em qualquer dos casos a ver

Só pão com azeitonas

Há-de ser sempre o meu jantar

Isto se o trigo crescer

Se eu o trigo colher

Se as azeitonas apanhar!



Da Graça ao Martim Moniz

Do Martim Moniz à degraça

Desapareceu o chafariz

Morreu o velho carcaça!

Bardamerda pr'à Carris!

É assim mesmo tudo passa!

É minha tia quem me o diz!



Rogério do Carmo

Villejuif, 23/6/1987

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Carro Eléctrico

Mensagem por Cravo En em Qua 24 Set 2008 - 22:02

Quem é este senhor que diz tudo o que penso e que ninguém ousa dizer?
Onde bvive, comlo vive, para que vive neste mundo de mortos sem coragem para escrever o que lhes vai na alma?

Queremos mais!!

Cravo En
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