"Quem era Linda de Suza na vida de Rogério do Carmo?" - PARTE 2

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"Quem era Linda de Suza na vida de Rogério do Carmo?" - PARTE 2

Mensagem por JornalExtra-Online em Qui 9 Out 2008 - 2:48

Linda de Suza na vida de Rogério do Carmo


Parte 2

LINDA DE SUZA e a “Mala de Cartão” - Amores invejas e raivas
Ou o reencontro dum grande amor!



Linda de Suza - "BLESSE-PEUT-ETRE"

Quem é ou quem era Linda de Suza?

Um filho em Israel...


A dada altura comecei novamente com aquele desejo muito intenso de voltar definitivamente para Israel. Muitas das minhas raízes por lá tinham ficado, como a possibilidade de ter um filho em qualquer parte nesse país que tanto amei!
Decidi ir ao Consulado de Israel em Paris e apresentei o meu problema. Falei com uma bela e simpática jovem que, depois da minha longa história, me pede que lhe escreva o meu nome, morada, e número de telefone sobre uma folha de papel. Fi-lo!
Em baixo, ao fundo dessa página, escrevo em Hebraico:


1960 - A professora Ruti que me ensinou Hebraico numa aula no Ulpan



- Quero o meu filho! -


A jovem senhora ficou surpreendida com o meu Hebraico, comovidamente pegou na folha e foi mostrá-la ao senhor Consul.
Momentos depois é o senhor Consul que me vem falar. Queria conhecer a minha história. Voltei de novo a contar o meu grande anseio de voltar definitivamente para Israel.

Depois de me ouvir ele volta aos seus aposentos com essa jovem e momentos depois ela regressa com um envelope na mão, que me estende, dizendo:

-Vá a Jerusalem, ao Ministério do Interior, fale com esta senhora, a única que tem o poder de resolver e legalizar a sua situação em Israel!

A minha estada em Israel...

Cheguei ao Kibbutz Beit Hashita em 1960. Aí, no Ulpan, aprendi a língua hebraica, os costumes judaicos e suas tradições; aprendi as cantigas e as danças judaicas; fui o melhor aluno da minha classe e plantei uma árvore agora entre os seis milhões de árvores em Jerusalem, homenagem aos seis milhões de víctimas da Shoa. Se com tudo isto eu não tinha sido convertido ao Judaísmo, tinha-me, pelo menos, totalmente integrado em Israel e nos seus costumes e modo de vida. Toda esta conversa em Hebraico!


Escola no Ulpan onde Rogério aprendeu a língua Hebraica, os costumes e tradições


Contei também que tinha vivido com uma rapariga no Kibbutz, uma Judia, e que quando acabei o meu curso de Hebraico tinha ido trabalhar para Tel Aviv. Ela vinha passar todos os seus fins de semana comigo a minha casa em Givataim.
Um dia, embaraçadamente, ela diz-me que andava muito preocupada, que não tinha tido os seus períodos já dois meses de seguida. Fiquei aterrado! Eu tinha 25 anos e queria continuar livre como o vento!

A sua vida no Ulpan...


Rogério do Carmo à porta de sua casa no Ulpan com os seus "bichinhos"


Sabia também dos problemas que essa rapariga tinha tido com a sua família em Haifa. Foi quase excomungada por ter uma relação com um Goy. Por essa razão, dei-lhe 50 Liras e pedi-lhe que fosse ver um médico em Afula para ver o que se passava. Ela saiu batendo com a porta, recusando a nota que lhe estendia.


Rogério e "Mimi" no Ulpan


"Ulpan"


Passaram-se alguns fins de semana sem que ela tenho vindo passá-los comigo a Givataim, como habitualmente o fazia. Telefonei ao Kibbutz. No Kibbutz só havia um único telefone no Secretariado. Claro que não era mesmo nada fácil localizá-la e pedir-lhe que viesse a correr atender a chamada.
Depois escrevi duas cartas que ficaram sem resposta. Preocupado, um dia apanho um autocarro e vou ao Kibbutz procurar saber o que se passava. Chegado ao Kibbutz, vou ao secretariado e indago onde se encontrava a Mimi. Foi-me dito, friamente, que a Mimi tinha casado com outro homem, que tinha deixado o Kibbutz, que não conheciam o seu paradeiro. Essa senhora olha-me fixamente nos olhos e matraca:
- a Mimi teve um filho. O seu filho!
Desorientado, clamo:
- Porquê meu filho? Ela casou com outro homem, é certamente filho desse homem!
- Não, caro amigo! O homem com quem ela casou chegou ao Kibbutz cinco meses antes do parto. O bébé é seu, tem a sua cara, só lhe faltam os óculos! - Nessa altura ainda usava os óculos que tinha comprado em Mafra, nos tempos do Café Estrela...



Após este incidente, procurei encontrar o paradeiro da Mimi, mas sem qualquer resultado. Durante 47 anos da minha vida, procurei auxílio em todos os Ministérios do Interior possíveis e imaginários. Desde Jerusalem a Tel Aviv, passando por todas as Agências Judaicas em várias grandes cidades do mundo. A resposta era sempre a mesma: “Sem sabermos o nome de família do marido dela, nunca poderemos saber do seu paradeiro!”

Em Setembro 2006 apanho um avião e vou até Jerusalem. Vou ao Ministério do Interior, peço para falar com essa senhora, e dou o envelope ao porteiro, para lho entregar.
Esperei alguns minutos na sala de espera. Quase logo a seguir o porteiro volta e conduz-me ao gabinete dessa senhora.
A senhora pede-me para me sentar, que lhe fale do meu problema. Depois de lhe ter contado toda a minha história, ela diz-me que eu não era Judeu, que não tinha qualquer direito de viver em Israel.
Conto-lhe também que o meu pai, em 1940, trabalhava no Registo Civil em Lisboa. Que haviam milhares de refugiados Judeus tentando escapar ao Nazismo; que meu pai estava autorizado a carimbar apenas cem vistos por dia e ele perdia-lhes o conto. Diariamente legalizava centenas de famílias lutando pela sua sobrevivência. Que não tinha coragem de recusar o seu auxílio a toda essa gente em busca de um sítio onde se refugiarem: Um Lar! O direito de viver!-
Por essa razão meu foi despedido – ordens do Estado Novo – e assim ele e toda a sua família, ficaram também, como eles, sem abrigo.
Ela pede-me o nome do meu pai, que ia averiguar e que, se fosse verdade, o nome do meu pai seria inscrito em Yad Vashem - o monumento em Jerusalem dedicado aos Justos, todos os Goys que durante a Segunda Guerra Mundial salvaram milhares de vidas de Judeus, foragidos do Holocausto.

Respondo-lhe, como é meu hábito, uma grande boca:

- Prefiro ter o meu nome num passaporte Israelita a ter o nome do meu pai em Yad Vashem! O meu pai já não precisa dos seus favores, eu sim!

Moralidade da história, ela chamou o porteiro e pediu-lhe que me mostrasse a saída.

Um amigo meu em Haifa, a quem tinha pedido ajuda para ver se ele conseguia encontrar a morada de algum membro da família de Mimi – coisa que fez, mas sem resultados alguns – dá-me a morada electrónica de um Detective Privado. Envio um mail onde conto uma vez mais essa mesma história.
Respondem-me muito rapidamente dizendo que se a não encontrassem, isso custar-me-ia 200 euros, mas que se a encontrassem, custar-me-ia 800 euros. Anuí!

O grande reencontro....

Cinco dias mais tarde tenho um telefonema da Mimi. Falámos uma hora. Ela estava felicíssima de me ter reencontrado. Para mim foi um dos dias mais felizes de toda minha tão acidentada existência!
Não ousei fazer a “sagrada pergunta”, preferi pedir-lhe a sua morada e se eu podia vir dar-lhe um abraço. Ela ficou louca de contentamento e deu-me seu número de telefone, morada, telemóvel, e a sua morada electrónica.
Durante alguns meses trocámos dezenas de mails onde ela me dizia coisas como: “Não casei com o meu marido por ele ser bonito ou bom na cama, houveram outras razões... um dia conto...” Mas esse dia ainda não alvoroceu...


Mimi na casa de Rogério em Tel Aviv


Um dia envio-lhe por mail uma bonita cantiga da Linda de Sousa, letra dum grande poeta francês, “Blessé peut-être” (mais pas mort) !
Em resposta ela envia-me outra cantiga da Linda: “Un Jour on se Rencontrera”!
Graças às letras dessas duas cantigas e à bonita voz da Linda, acabámos por nos apaixonar novamente um pelo outro, desta vez muito mais seriamente do que no longínquo passado. Desde então o amor paira no ar...

O amor e alguns eternamente inconfessáveis segredos...

Em Setembro de 2007 pego noutro avião e vou ao seu encontro. Ela morou todos esses anos a dois passos de mim, quando eu vivia em Herzelia. Frequentávamos a mesma praia, e nunca esbarrámos um com o outro!

Destino? Má sorte?


Passei duas semanas com ela e sua família em Tel Aviv. Caímos nos braços um do outro, démos grandes voltas e fizémos grandes projectos irrealizáveis. Seu marido – obviamente - não me desejou as boas vindas.
Conheci o seu filho. Ele estava casado e tinha três filhos. Não se parecia mesmo nada comigo fisicamente, mas era o duplicado da minha personalidade. Tirei-lhe uma fotografia em primeiro plano e, chegado a Paris, olho para a foto e digo: ele lembra-me alguém, alguém que bem conheço...
Outro alguém que vive comigo há 42 anos, diz-me em surdina: pois lembra... é parecidíssimo com o teu pai...
Quanto à Mimi, quando lhe contei a “velha história”, ela diz-me pesarosamente que tinha feito um desmancho, que o filho era do seu marido...

Um dia fomos todos jantar à bonita casa da sua filha, ali perdida entre as montanhas, nos territórios ocupados. Fizeram-se uns grelhados ao ar livre naquela noite calma e luarenta... Ocasionalmente, havia um relâmpago que cortava o estrelado céu dessa noite tão serena...
A dado momento volto-me para o seu filho e digo-lhe que eu amava a sua mãe... embargadamente ele responde: “Eu também!”
Aproveitei a ocasião para lhe dizer que ele se parecia muito com o seu pai... O marido dela diz alto e claramente:
- “ Ele não é meu filho, é meu filho adoptivo!” Um violento clarão rasgou o céu e os relâmpagos sucederam-se uns atrás dos outros interminavelmente... Senti-me ainda mais perdido do que tão perdido eu sempre andara!
Penso que nunca saberei ao certo quem realmente somos neste mundo de complicadíssimos condicionamentos absurdos!

Sugeriram-me que eu exigisse um ADN... mas penso não ter o direito de desmoronar toda uma família, afim de desvendar esse grande mistério, acalmar as minhas angústias sem fim, derrubar a minha insuportável dúvida.
Dúvida que há 47 anos frequentemenete me tem roubado o sono. E só Deus sabe quantos anos ainda mais de dolorosas insónias no porvir... Noites intermináveis povoadas de poucos sonhos mas de muitos terríficos pesadelos!

Entretanto, graças a duas cantigas da Linda de Sousa, Mimi e Rogério, estão novamente apaixonados, a despeito de todas as distâncias que os possam dolorosamente separar...


Blessé, peut-être
- mais pas mort!

Un jour on se rencontrera !?...


Un jour on se rencontrera




Paroles et Musique: M. Jouveaux, C. Assous
________________________________________

Un jour on se rencontrera
Il y a trop longtemps que j'attends
Déjà je danse et je balance
Entre les vagues de tes bras

Un jour on se rencontrera
Ce n'est pas possible autrement
C'est mon histoire
C'est ton histoire
Sans le savoir tu viens vers moi

Un jour on se rencontrera
Ca se voit déjà dans mes yeux
Je t'imagine
Et te dessine
Du bout du coeur
Du bout des doigts

Un jour on se rencontrera
J'en ai tellement parlé à Dieu
Y a dans mes larmes
L'eau de tes larmes
Les gens qui s'aiment
C'est comme ça

Un jour on se rencontrera
C'est déjà écrit dans le ciel
Je dors tranquille
Loin dans mon île
Je suis restée libre pour toi

Un jour on se rencontrera
Entre la mer et le soleil
Si c'est un rêve
Alors je rêve
Qu'un jour on se rencontrera
Si c'est un rêve
Alors je rêve
Qu'un jour on se rencontrera




Rogério do Carmo


Última edição por Atena em Dom 12 Out 2008 - 15:24, editado 2 vez(es)

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Linda de Sousa

Mensagem por Mia em Sex 10 Out 2008 - 1:11

Que bonita história de amor!
A despeito de todos os horrores que se passam nos tempos que correm,
que maravilha saber que o amor ainda é possivel entre os homens!
Que pena ser tão raro ouvirmos histórias tão bonitas que nos fazem de algum modo voltar a acreditar na Humanidade

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