FOLHETIM ONLINE "Tudo em pratos limpos"....o começo do livro!

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FOLHETIM ONLINE "Tudo em pratos limpos"....o começo do livro!

Mensagem por JornalExtra-Online em Sab 11 Out 2008 - 22:25

...o começo do livro!





Página 1 - Introdução


Envelhecer é o pior dos insultos à dignidade humana !

Ficam-nos apenas recordações
E seus efeitos secundários...



Página 2 - Dedicatória



Este livro é inteiramente dedicado
A todos aqueles para quem ele foi exclusivamente escrito!


Página 3 - Pensamento




Um livro não tem que ser bem escrito
tem que ser bem lido!



Página 4 -Introdução



O mais difícil ao escrever um livro é precisamente iniciá-lo.

Nunca sabemos ao certo como e quando o começar mas, uma vez a primeira palavra lançada ao papel, sentimo-nos como um cavalo de crinas soltas ao vento, em louca cavalgada. Inebriados de liberdade, nada, nem ninguém, poderá impedir-nos de vencer todos os obstáculos que possam surgir-nos pela frente! Ou amordaçar-nos, tentando calar o que nos vai na alma e que há tanto queríamos gritar ao mundo inteiro! E finalmente o grito ecoa!

Chegados a certa idade, surge-nos uma necessidade indescritível - vinda não sabemos donde - de deitar contas à vida, procurando compreender a razão porque fomos deitados a este mundo. Com que intuito? Qual a função de cada um de nós? Porque razão - sem jamais o termos solicitado – sermos expulsos como indesejados empecilhos no útero das nossas mães?
Vivemos unicamente para procriar e garantir a continuação de todas as raças? Como os bichos, para nos comermos todos uns aos outros? E para quê a necessidade de comer para sobreviver? Não poderíamos viver simplesmente do ar que se respira?
Mas do ar que se respirava antes dos degradantes atentados à natureza, praticados por seres abjectos e ambiciosos que, na ânsia de controlar o mundo, vão destruindo o nosso planeta! Que lhes importa que os seus satélites – fruto dos excessivos progressos tecnológicos - provoquem a destruição desse mesmo desditoso planeta?
Para eles o que conta é o “capital”, as acções, a Bolsa… Depois espantam-se quando a Natureza, insultantemente agredida, nos envia catástrofes! Catástrofes ditas naturais, a lembrar ao mundo que o Homem não é, nunca foi, nem nunca será Deus!
Valerá a pena sobreviver se estamos todos condenados à morte? Para quê todas estas constantes e inúteis guerras por esse mundo fóra? Inúteis para nós, que nada lucramos com isso, mas tão úteis para os tais que, graças a elas, ganham montanhas de dinheiro com o fabrico e vendas de armas, bombas, tanques, metrelhadoras, mísseis! Nós apenas perdemos as vidas de milhares de soldados – quantas vezes os nossos próprios filhos - que, a despeito de muito bem armados, se metralham mutuamente numa carnificina deplorável!
Como tudo seria melhor se fossemos suficientemente inteligentes para compreender que o dinheiro não pode comprar tudo quanto possamos ambicionar, que nada vale a pena quando a cova é tão pequena!




A partir do momento em que fomos concebidos, graças a um desvairado espermatozóide, o único entre milhões, que atingiu o alvo, rompendo o óvulo duma incauta mulher que foi para a cama com a única intenção de recuperar de
mais um dia de trabalho, acaba por caír na ignóbil armadilha da natureza do inexplicável eterno recomeço.
O gozo sexual foi dado a todo o ser vivente, não para lhe dar prazer ou qualquer outro tipo de recompensa, mas sim maquiavélica engrenagem para garantir a continuação de todas as espécies que se devoram reciprocamente! Sempre o mais pequeno devorado pelo maior, mais poderoso!
Somos uma raça desditosa de presas e predadores, mas mesmo os predadores são deglutidos por outros predadores mais corpulentos ainda. E isto, uma vez mais, num implacável círculo vicioso!
E para quê continuar? Valerá a pena? Se a vida é apenas uma curta viagem de comboio, só ida?
Que espanto viajar de comboio e ver o rápido desfilar de magníficas paisagens por uma janela conspurcada, se essa viagem se reduz a uma absurda ida do Cais do Sodré a Cascais?
No meu caso, já cheguei ao Estoril! Apenas fazendo horas para seguir viagem…




A Carta da Lila


Esta manhã, depois de uma noite agitadíssima com pesadelos medonhos, levantei-me a custo e fui até à cozinha fazer um café. Depois segui para a sala para saborear esse mesmo café e fumar o meu primeiro cigarro do dia.

Sentei-me no sofá e olhei o mundo lá fora pela larga janela e vi as árvores baloiçando na ligeira brisa matinal. Olhei as janelas fechads e silenciosas dos vizinhos da frente e senti como se eu já não estivesse nem aqui nem ali nem em parte alguma...

Olhei para o cesto dos papéis e dei com uma folha muito amarrotada caída no chão, junto ao cesto dos papéis... Pensei quase automaticamente que se tratava de algum papel sem qualquer importância que eu na véspera deitara fora e senti-me como aquela folha de papel amachucado, bom para ser também deitado ao lixo...

Levantei-me, peguei no papel e quando ia para o repor no cesto dei com um pequeno poema meu intitulado Blasfémia, escrito em Paris no dia 12 de Dezembro de 1988... Tinha eu então cinquenta e três anos...

Curioso, reli esse poema:

“Sorridente
Frente ao espelho
Como em frente de um altar
Fingindo não ser velho
Moribundo no seu leito
Discretamente perguntar:
Mas o que é feito de mim
Do meu corpo escorreito?”

Mas o espelho caíu
O espelho se estilhaçou
O altar desabou
E meu sorriso fugiu!






Este poema fustigou-me brutalmente na minha apatia e muitas perguntas, de mim a mim mesmo, foram formuladas...

Que diabo vim eu fazer a este mundo? Quem me trouxe cá? Que vim cá eu fazer?

Comecei a recuar no tempo, a ir ao encontro das primeiras imagens que se me gravaram no cérebro ainda quase virgem e incauto, e comecei a ver estranhas imagens desfilarem ante meus olhos ainda mal acordados...

Vi a minha irmã Maria Adilia, a quem ternamente chamávamos Lila, a mulher que um dia me enviou uma longa carta a contar-me como tinha tudo sido no dia em que, sem querer, cheguei a este mundo...

E ela contou...

Nasceste na Casa da Brasileira, aquela casa encarniçada ali mesmo à beira da estrada de Mafra à Ericeira - mesmo à beirinha do Pinhal dos Frades - com uma larga vista sobre o imenso vale. A casa que meus pais compartilhavam com a Pitinhas e o marido e filhos. Quando meu irmão Carlos nasceu, também a Pitinhas deu à luz uma filha, de quem a minha mãe foi a madrinha e lhe deu a única coisa que ela lhe podia dar: o seu nome! Laura!
Como a Pitinhas não tinha leite foi a minha mãe quem amamentou a Laurita, uma rapariga de quem desde sempre, sem saber qual a razão, muito gostei. Só muitos anos mais tarde, intrigado pelo amor que eu tinha a essa mulher, fui elucidado. Foi a Luizinha, a filha da Laurita, que me contou essa história e fiquei então a saber porquê este meu grande amor pela Laurita:

A Laurita era minha irmã de leite!



Nesse momento, meu Deus, que felicidade me invadiu a alma!



Depois, outras coisas a Lila me contou...



Nasceste no Sobreiro, na Casa da Brasileira - a tal casa ali mesmo à beira da estrada - no dia 2 de Fevereiro de 1935. Era sábado, dia do São Purificado, Que nossa mãe me tinha parido, sózinha no seu quarto, com a porta fechada, abafando seus gemidos, sem autorizar a Lila a entrar no quarto.

Quando a Lila ouviu o meu primeiro grito soaram na pequena torre da Igreja do Largo, ali muito perto, as doze badaladas do meio dia...

Meu pai tinha ido a correr chamar a parteira mas, como já estava com os copos, caiu num barranco e não conseguiu levantar-se. Quando a parteira chegou à Casa da Brasileira, minha mãe já tinha cortado o cordão umbilical...

Muitos anos mais tarde, quando minha mãe nos deixou, fui eu quem, também sózinho, não deixando ninguém entrar no quarto, abafando os meus soluços, tive de cortar o cordão umbilical que nos uniu...



“cobri seu rosto gelado e deitei-me depois a seu lado para do mundo me esquecer”!


Mais tarde, meu pai, que trabalhava na Repartição de Finanças em Mafra, dentro do magestoso Convento, esqueceu-se de me registar no Registo Civil e, em Outubro, quando se lembrou de o fazer, para evitar de pagar a multa, registou-me como nascido no dia 2 de Outubro. Assim, tenho dois aniversários por ano. Hoje, em vez de ter 73, tenho 146 anos, embora que, dentro de mim, eu seja sempre esse último rebento que veio a este mundo directamente do ventre dessa mãe às ensanguentadas mãos dessa corajosa mulher!

***


Meus pais casaram-se civilmente em Lisboa, no dia 17 de Setembro de 1919 pelas dezóito horas.
Fixaram residência em Lisboa na Rua do Arco do Carvalhão, 53-1° esquerdo, casa que já foi deitada abaixo para dar lugar a mais um supermercado, creio...
Foi nessa morada que lhes nasceu a primeira filha a 14 de Julho de 1920, a quem deram o nome de Maria Adília que, por decisão da mãe Laura, começou a ser chamada Lila, e que ela, a Lila, só quando já andava na escola, veio a saber que se chamava Maria Adília!
No dia 31 de Julho de 1921 nasce o José Manuel; no dia 28 de Janeiro 1924 nasce o Alberto Virgílio; no dia 1 de Maio de 1925 nasce a Maria Luiza. Todos eles nascidos em Lisboa na rua do Arco do Carvalhão
.
Depois, em Setembro de 1926, por decisão do meu pai, o Alberto Ilídio, mudam-se para o Sobreiro onde foram viver para a Casa do João Benvindo e aí falece a Luizinha a 29 de Setembro de 1928, com 5 anos, víctima duma meningite. Em Março de 1929 nasce o Carlos Simplício.

Em 1930 mudam-se para a Casa da Brasileira onde, no dia 5 de Abril de 1931, nasce o Elmiro Ventura; no dia 8 de Fevereiro de 1933 nasce o Fernando Héleo, o único irmão com quem brinquei e cresci.

Finalmente, no dia 2 de Fevereiro de 1935, nasce o Rogério Francisco, o último embrião do casal Laura Guedes e Alberto Ilídio, o tal que deu o seu primeiro sinal de vida quando soaram as tais doze badaladas do meio-dia na tal torre da pequena igrejinha do Largo...




Casa da Brasileira

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